
Caminhando desajeitadamente, arrastando as chinelas pelo chão poeirento, vai Equécrates, a quem Símias mandou pedir a Sócrates se este por acaso tinha trinta gramas de surro que lhe dispensasse. Nisto, Equécrates encontra Sócrates sentado num calhau, como é apanágio de qualquer filósofo, e coçando o sovaco com a unha do indicador direito, como é apanágio de um trabalhador da construção civil. Além de coçar, Sócrates encontra-se batendo o sacana de um papinho com Platão, que anota as suas sábias palavras numa sebenta.
PLATÃO: Mas diz-me Sócrates, que mania é essa a tua de não tomares banho?
SÓCRATES: Ora meu caro Platão, estarás tu por acaso a pretender insinuar que a minha pessoa fede?
PLATÃO: A pretender insinuar nunca, que não gosto disso. Estou mesmo é a afirmar que tresandas a mijo que embaça.
SÓCRATES: Diz-me Platão, porque pensas que não tomar banho tem algo que ver com o facto de eu cheirar a mijo?
PLATÃO: Então Sócrates, vamos lá ver, tem tudo. Se não te lavas, cheiras mal.
SÓCRATES: Aí reside o teu erro, caro Platão, é que o meu odor a urina não advém do facto da minha pessoa não tomar banho, mas porque tenho falta de vista e sempre que vou efectuar o chichi descuido-me nas chinelas e na toga.
PLATÃO: Entendo Sócrates, mas o facto é que com ou sem urina continuas a feder.
SÓCRATES: Pois bem. E eu pergunto-te Platão, que é isso de cheirar mal? Não se trata o olfacto apenas de um mero sentido que usamos para percepcionar a realidade?
PLATÃO: Sim, pode ser entendido como tal.
SÓCRATES: Então admites Platão, que caso fosses privado desse sentido não poderias afirmar levianamente acerca do meu mau odor corporal, certo?
PLATÃO: É factual, Sócrates. Mas não só cheiras mal como és feio.
SÓCRATES: Platão, Platão, Platão. Poderias tu fazer essa afirmação acerca da fealdade do meu semblante se fosses porventura ceguinho das duas vistas?
PLATÃO: Decerto que não, pelo menos no imediato. Mas se tocasse com as mãos na tua cara rapidamente constataria que esta parece um menir.
SÓCRATES: E se fosses maneta dos dois braços, Platão, achas que conseguirias apalpar a minha aparência física usando os cotos?
PLATÃO: Decerto que não.
SÓCRATES: Então admites, que caso fosses cego, surdo, mudo e maneta de ambos os braços poderias afirmar que eu era um sujeito bonito certo?
PLATÃO: Certo.
SÓCRATES: Errado. Não poderias afirmar nada porque eras mudo, meu caro.
PLATÃO: Os teus argumentos são muito bonitos Sócrates, mas estar aqui ao pé de ti, uma pessoa de grande gabarito no seio da filosofia, quando cheiras nitidamente a mijo é quase tortura.
SÓCRATES: Voltas a insistir nisso, Platão, que chatice! Não me ouviste já dizer que a filosofia é um treino de morrer e de estar morto?
PLATÃO: Ouvi pois, Sócrates. Mais vezes do que desejaria.
SÓCRATES: E estar morto não inclui pois tornar-se um cadáver fedorento?
PLATÃO: Inclui pois.
SÓCRATES: Então admites que a minha recusa em tomar banho poderá ser entendida como uma prática filosófica, uma vez que me faz cheirar a cadáver?
PLATÃO: Sem dúvida, Sócrates. És levado da breca. E ainda assim olha, tresandas.
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